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05/09/2004 23:46
6 MESES DE VIDA: Diário de bordo, ou Ser pai é que nem rapadura
Caramba! Parece que tenho o Artur há anos. Esta criança tem feito o tempo passar mais devagar. Entramos no ritmo dele, em que um mês significa 1/6 de vida. Talvez pela intensidade com que temos experimentado isso tudo, esse devir-bebê, nesta relação simbiótica, que não é, definitivamente, exclusividade da mãe.
Gosto de olhar despretensiosamente ele brincando, sem tentar entender a lógica daquilo que ele faz, pois não há. Sei que ele é um corpinho pulsando a descoberta do mundo através das sensações e, hoje, um pouco mais que isso. Esses dias acordei com ele aos berros, não chorava, experimentava o limite de sua voz, como sabiamente disse a babá; foi ótimo. E quando chora, aí sim, tentamos traduzir o que ele quer. Quase sempre acertamos (ou temos a ilusão de que acertamos, para nos confortar de que já "entendemos" ele).
Adoro ver ele com a Letícia enquanto mama. Se me permitem o narcisismo, esta cena lembra a minha própria infância. Quando o Artur passa a mão no rosto, no braço, no peito da mãe, lembro-me que fazia a mesma coisa na minha mãe, já maiorzinho, o que me rendeu o apelido de "esfrega-esfrega", dado por meu pai, carinhosamente. É incrível como ele nos "suga" e ao mesmo tempo nos dá força. Sempre demandando muito da gente, exigindo uma nova brincadeira, uma nova musiquinha, levando-nos a reinventar a todo instante (ainda bem!). Fico pasmo como ele desafia aqueles manuais de psicologia: tão agitado, inquieto e também tão atento, compenetrado; pulsando, realmente.
São estas ambigüidades que me fazem crer que ele VIVE, não no sentido de "estar vivo", simplesmente, mas no sentido de que aproveitar o instante plenamente. Ambígua também é a função do pai. Como nem tudo são flores, não foram poucas as vezes que eu e a Letícia brigamos sobre a dita "melhor forma de educar". Aí começaram os contrastes. Achei que seria um pai "lassez-faire", do tipo "deixa rolar". De fato, não tenho os medos que muitos pais têm de que o filho vai se machucar, que filho não pode chorar e acudem os filhos de forma desesperada. "O que não me mata, me fortalece", diria Nietzsche, e concordo. Mas logro-me em atavismos autoritários, do tipo "ele TEM que aprender", nada nietzscheano (e aí passo a entender e admirar ainda mais meu pai). Complicado. É uma luta ser pai, acho que o negócio é aceitar essas contradições como parte do processo, mesmo que o Artur venha a entender isso bem mais tarde, tipo "reflexão pós-adolescente", sei lá.
Assim ele nos tira do sério muitas vezes. Por sorte, eu e a Letícia estamos tão sincronizados que quando eu perco a calma, ela se mantém sóbria e me ajuda, e vice-e-versa. Como aconteceu hoje, que ele nos queria 100% e nós querímos tentar terminar de assistir um filme no dvd. Resultado: levamos a tarde inteira para conseguir assistir um filme de duas horas. Ossos do ofício. Amanhã (segunda-feira), vamos tentar vencer mais um desafio: ir a um baile - façam suas apostas...
Ainda há pouco conversava com o dindo João (meu brother) e me veio uma certa tristeza em termos "escolhido" criar o Artur longe de todos os avós e tios. Tive a nítida sensação da dimensão do efeito-Artur na vida de todos, e uma vontade imensa de compartilhar ele com todos, coisa que as avós Sueli e Iza já lamentam há tempos. Talvez seja resquício da "alma pêlo-durista" (diriam uns amigos) que insiste em reverberar neste corpo, essa ética indígena de compartilhar suas vidas, suas casas, seus filhos com seus semelhantes.
Para concluir, diferentemente dos capitães dos navios dos filmes: "nem tudo está calmo e sob controle" - para a minha alegria.
Abraço a todos e obrigado pela força.
Luca - o pai
enviada por Luca&Letícia
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